quinta-feira, 31 de maio de 2007




A lua vai alta e o céu já escureceu.
Ouvindo uma música de fundo ela fica a contemplar a paisagem.
O espaço verdejante que se encontra em frente à sua casa, o soar das canas da ribeira e o grito das aves que ali habitam é mais forte que a música saída do aparelho electrónico.
A sua melodia é mais autêntica porque se forma naturalmente a partir da própria natureza.
À luz de uma vela perfumada ela consome-se no perfume que se espalha no ar.
Vive apenas aquele momento com a intensidade que o seu pensamento lhe dá.
Vive apenas o momento estonteante do presente, não pensando em mais nada.
Absolutamente nada...
Apenas está presente no momento presente na varanda da sua casa...
Escreve não pensando sequer no texto que está a escrever, apenas escreve o que a sua caneta dita porque a escrita liberta e ela quer descrever a sensação desse momento a passar.
Não pensa no passado nem tão pouco no futuro. Apenas vive aquele instante...
Ao fundo as luzes da cidade clareiam o céu abaixo da lua. Elas são de todas as cores, movimentando-se para lá do verde que se encontra à sua frente.
E apenas vive esse momento...
Mais tarde tem tempo para pensar no que quer fazer da sua vida, no que está certo, no que está errado, nas contas que tem para pagar, no trabalho que tem para fazer, na mãe e no pai que se vão distânciando aos poucos...
No encontro amoroso das horas vagas ou no amor do conto de fadas que a mãe lhe contava em criança...
Nos amores perdidos que não se voltam a encontrar e naqueles que poderiam chegar a ser grandes amores, outrora rejeitados...
No amor perfeito...
Aquele que promete vir um dia ao seu encontro mas que nunca chega a horas.
Enfim, tudo o que conhece e sabe deixa ficar para mais tarde...
Agora prefere ficar apenas a contemplar o infinito...que é ao fim ao cabo o desencontro com a vida.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Apetece-me provar dessa loucura de que falas e mergulhar nesse mar profundo onde Deus habita.
Ultrapassar todos os limites impostos pela sociedade e viver na corda bamba que está para além de mim...
Para além das minhas "condições de possibilidade".(imperativo categórico kantiano).
Mas essa pertence a uma esfera numénica inalcansável e inacessivel a qualquer ser humano
porque somos feitos de carne e osso e não apenas essência,
porque somos visiveis ao olhar dos que nos rodeiam e pior ainda,
porque temos de conviver com eles e muitas vezes para eles.
Esse é o motivo pelo qual estamos aprisionados na caverna de Platão e não conseguimos ainda ver a luz, apenas as sombras das coisas que passam por detrás de nós...
É por isso que a filosofia demarca essa diferença entre o cognoscivel e o inconsciente.
Não sei se Kant teve ou não razão na sua Critica da Razão Pura, o facto é que a esfera dos fenómenos abarca tudo o que conhecemos.
E o que é a nossa vida senão isso mesmo?
Viver com o que sabemos. O desconhecido permanece ele mesmo no desconhecimento e não há ninguém que o consiga alcançar.
Ficámos desde sempre aprisionados a um tempo determinado e finito incorporando uma matéria com com a qual nos mostramos perante o Dasein e a passagem ao numénico far-se-há apenas quando essa duração chegar ao fim.
Esta é a condição incondicional à qual nunca poderemos fugir.
Essa loucura de que falas é no fundo o belo e o sublime, esse desejo de correr atrás do desconhecido sem nunca o conseguir agarrar, a ancia de apanhar todos os momentos com uma só mão e a fúria desesperada de querer ser feliz.



sábado, 12 de maio de 2007

Travessia


Pelas águas profundas do rio Tejo, navego para a outra margem.
A terra vai ficando para trás e a pequena travessia do Terreiro do Paço para o Barreiro faz-se à semelhança da longa viagem do meu pensamento...
Alcanço agora uma miragem do lado de lá da margem num fio de esperança de lá te encontrar.
E enquanto navego neste curto espaço de tempo, as lembranças vêm-me à memória tão velozmente quanto as ondas que vão ficando para trás...
E o meu passado confunde-se com o meu futuro espelhando-se simétricamente no meio do vazio que é aquele instante.
Interrogo-me...
O que me espera?
Quem espera por mim?
Por quem espero eu?

E o tempo avança à medida do percurso que traço na esfera do espaço, enquanto a vida permanece absolutamente estática.
Aqui estou parada, numa quietude inquietante, sendo embalada pelas ondas destas águas que me levam para a outra margem...
Apenas contemplando a paisagem...

Estou quase lá...
E tudo passa, mas tudo fica na memória de uma curta viagem que se estendeu por toda a minha vida.
E interrogo-me novamente...

O que me espera o outro lado da margem...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Por vezes a nossa vida gira ao contário, tal como o galho da árvore volto para baixo. Mas olhem com atenção...

Ela não deixa de ter o seu encanto por ficar despida, pois mesmo voltada para cima as suas folhas acabariam por abalar no outono. Reflitam...

Podemos sempre fazer da vida um arco iris, mesmo quando tudo parece estar fora do lugar...

A conjugação das cores pode ser perfeita e trazer um novo sentido, diferente sim, mas não cinzento!

Tal como as várias fases da vida, a própria natureza da árvore, produz sempre alguma forma de beleza a cada estação e apesar das folhas cairem ela continua de pé...

AH, A FRESCURA na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida! Até não consigo acender o cigarro seguinte...
Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida

Fernando Pessoa

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Euforia

Na euforia da noite tu apareceste para me salvar
daquilo que poderia ter sido a gota d'água do que já foi...
E depois voltaste novamente na euforia de uma outra noite.
Uma noite diferente de todas as outras que já passaram.
Nessa noite, o acaso uniu-nos à maneira originária da natureza e levou-nos a observá-la na mais intima e doce beleza do seu aparecer.
Um aparecer escondido e mostrado ao mesmo tempo.
E na contemplação de uma lua envergonhada desencadeou-se uma vontade mutua...
...o beijo.
O beijo do céu a tocar na terra no instante em que Zeus chamou Gea a presentificar o seu desejo.
E penso...
Se fosse o sim a prevalecer?
A mistica envolvente do momento vivido jamais desaparecerá...
E penso...
E depois, que restaria de nós?
A vontade de avançar no momento presente levaria à quebra do momento seguinte...
E penso...
Como seria o fim?
No fim não restaria nada a não ser... o fim da euforia de uma noite perdida.
E decidi.
NÃO