O Doido e a Morte
E o Doido viu a Morte e o seu eterno
Riso esculpido em mármore de sarcasmo
Ocultar-se na branca e fria névoa,
Que, ao receber no seio aquele espectro,
Como que cheia de água, escureceu.
E assim cantou aos montes acordados:
"Tive nos braços a Morte;
Tu bem viste, Noite triste!
E viu-nos o luar e o vento norte...
"Tive a morte nos braços, que alegria!
Que loucura!
Nas trevas, encontrei a luz do dia,
Nas pedras a ternura.
"E ri, de noite; e o meu riso
Na sombra do ar chorava...
E tudo abria os olhos e falava...
A noite é como o dia do juízo!
"Vi mortos ressurgidos,
Mostrando a carne em flor sobre o esqueleto,
Quando o frio crepúsculo se espalha
E a dor que anda no céu a terra orvalha,
E os mochos piam nos pinhais transidos
De terror secreto.
"E eu ri, de noite.
E fiz mais:
o riso na origem,
Nesses lábios espectrais
Da morte virgem!
Vi o riso verdadeiro,
O riso desmascarado;
Não esse riso amortalhado
Em nevoeiro...
"E vi o fundo ao riso.
A minha dor
Tocou-lhe o fundo.
E vi de perto então
A sombra inicial da criação,
A luz final do Amor!
"E ri, na escura noite!
E à luz da aurora,
Como estrelinha de oiro, o riso treme,
Empalidece e geme E chora... "Manhã cinzenta e baça!
Que tristeza!
Como perdem os campos a beleza:
A penumbra que os veste, e é sonho e graça.
"Adeus, ó morte, velha irmã
Do outono!
Ó desencanto da manhã!
Ó sol! Ó sol!
Aparições do ruído
E do tumulto humano desmedido!
"Roubou-me o claro do dia o que me trouxe
A noite, a solidão, a luz do luar....
E a morte, que em meus braços foi donzela e corpo de beijar,
Pega na férrrea fouce,
Salta, ligeira e alegre à dura sela
E vai ceifar, ceifar!"
E enquanto o Doido, ao vento, assim cantava,
Trotava a Morte ao longo do planalto,
Na meia luz, na meia realidade...
E a sombra da sua Fouce, em negra curva,
Ia da aurora ao poente; e a do seu vulto
Parecia manchar toda a paisagem.
Teixeira de Pascoaes
Um comentário:
não sei se te diga que és a causa.
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