
Há dias li um artigo publicado na revista Super Interessante do mês de Novembro/07 sobre o conteúdo do livro “Um mundo sem nós” editado pelo autor Alan Weisman, que por sua vez compôs a sua obra à base de estudos e dados científicos que apurou junto de cientistas das mais variadas áreas de modo a que o produto final da sua obra descrevesse uma perspectiva o mais ajustada possível à realidade se eventualmente se desse o fenómeno da extinção da espécie humana.
Particularmente, achei bastante interessante esta ideia e a preocupação que o autor teve em editar um livro que poderia ser apenas um fruto da sua imaginação e que, no entanto conseguiu fazer com algum rigor lógico e cientifico, na perspectiva do “como se” fosse verdade!
No entanto, mais do que uma simulação dessa realidade, coloca-se neste tema um novo paradigma ontológico e epistemológico sobre a própria origem e evolução da espécie humana na esfera terrestre. Pois tal como as teorias estruturalistas ou os darwinismos do passado nos dão uma perspectiva sobre o princípio da nossa existência na terra, também aqui, A. Weisman nos coloca diante de uma perspectiva semelhante mas antagónica. Como que um pressuposto contrário ao do nosso principio. Seria antes como um desaparecer da espécie humana que daria lugar a uma recriação do mundo depois da nossa actuação sobre ele. Neste caso seria o princípio de uma auto-regeneração da própria natureza e de como esta poderia sobreviver sem uma intervenção racional que a fizesse transformar em algo diferente daquilo que ela é como matéria-prima. Deste modo, o nosso desaparecimento daria origem a uma nova paisagem onde vigoraria a actuação vegetal e animal sobre o tempo e o espaço e de como estas espécies se desenvolveriam e retirariam todo o proveito desse próprio espaço aproveitando os vestígios da fabricação humana.
Do meu ponto de vista, o que se coloca aqui em causa é a força bruta da natureza e de como esta é capaz de sobreviver e fazer da esfera terrestre um instrumento funcional para a sua própria subsistência. Assim, toda a natureza se desenvolveria de modo a explorar sobre ela mesma os seus próprios recursos naturais, ou seja, actuaria ela própria sobre si mesma, sem que para tal precisasse de fabricar algo que não resultasse como produto final na sua própria matéria. Nesta actuação natural da própria natureza em si não haveria forças impositoras ou ditatoriais, tudo se transformaria livre e anarquicamente. Cada espécie vegetal ou animal imporia a sua natureza sem restrições. Deixaria de haver crenças religiosas ou cultos sociais, não haveria necessidade de pensar e muito menos de dizer. Seria o absoluto silêncio da razão em prol de uma liberdade naturalmente actuante. Continuaria a haver rituais de acasalamento e uma musicalidade desprovida da necessidade de compilações de sonatas em papiro. Todos os sons se produziriam calmamente e, em simultâneo comporiam uma sinfonia estonteante e diversificada de instrumentos e tonalidades. Seria um novo mundo com uma nova paisagem, uma outra riqueza, uma diferente importância. Todo o poder que a espécie humana exerce hoje sobre a natureza, destruindo-a cada vez mais em prol de um usufruto da mesma para a sua comodidade enquanto ser no mundo se transformaria no seu contrário. Tudo o que a espécie humana construiu seria naturalmente destruído pela corrosão dos solos, pelas cheias e furacões, assim como as condições atmosféricas dariam origem à expansão de espécies animais e vegetais actualmente em vias de extinção e talvez a um equilíbrio natural do próprio ecossistema.
A questão fundamental que se coloca perante um hipotético fenómeno como este é saber onde está a entidade criadora. Esse motor imóvel de criação aristotélica que tudo faz girar à sua volta, girando sobre ele mesmo e por isso permanecendo sempre no mesmo lugar comandando o exterior. Esse motor que ao longo dos séculos de sobrevivência e actuação humana foi adquirindo várias designações e incorporando um estatuto de poder soberano. Afinal não será a própria natureza esse Deus em que nos apoiamos hoje?
Se desaparecêssemos do planeta poderíamos colocar a questão do abandono de Deus a partir das suas próprias criaturas, a deixá-lo governar-se por si só? Ou pelo contrário, poderíamos igualmente colocar a questão de maneira inversa, de que Deus nos criou para agora nos abandonar...Nesse caso, para que plano Deus nos transportaria a nós, criaturas dele?
É curioso pensar todas estas questões em particular e não apenas limitarmo-nos a observar esse fenómeno na sua aparência paisagística, pois existem determinados factores que interferem no estado das coisas, com os quais é impossível consolidar uma posição absoluta dessa transformação por si só.
No meu poder criativo, diria que…Seria catastrófico passar para um outro plano no qual se pudesse observar a evolução do planeta terrestre sem nós, aprisionados numa esfera irremediavelmente impermeável, onde só subsistiria a espécie humana, ficando esta interditada de qualquer relação com outra espécie que não fosse ela própria, não podendo esticar o braço para colher uma rosa, ou sabendo que existiria fruta madura, fresca, pronta a comer, não lhe pudesse dar uma dentada, ou ter a certeza de que o Adão não desceria à terra e a Eva já não iria cometer o pecado original novamente. Isto colocar-nos-ia no fundo de tudo, no abismo mais profundo do universo, somente a assistir à força brutal da espécie vegetal e animal a consumir um planeta que outrora era nosso. Este fenómeno remetia-nos para o inferno, pois ficaríamos imputados de qualquer actuação, de qualquer intervenção, de qualquer manutenção sobre o real. Ficaríamos desta forma como que, suspensos dentro de uma grande bola de plástico transparente que nos teria sido deixada como herança, apenas a observar a paisagem e a transformação daquilo que nós próprios construímos. Esta poderia ser uma forma de penitência pelo facto de destruirmos aquilo que agora se auto-regeneraria…Ficaríamos ali agonizados a aguardar de novo a total regeneração da natureza até que esta se tornasse de novo no paraíso para que essa esfera impermeável onde aguardávamos esse estado, se rebentasse e voltasse de novo a existir a tal humanidade que viria mais uma vez destruir a natureza…
Esta visão da relação entre o ser humano e a natureza dá-se na minha mente de forma cíclica, assim como a própria natureza o é. A chegada da noite, o cair do manto negro com a lua de fundo e o aparecimento do sol em cada nascer do dia... iriam perpetuar-se infinitamente…